Dra. Nathalia Sousa

Menopausa, hormônios e tirzepatida: por que algumas mulheres emagrecem mais do que outras?

A menopausa é um período de grandes transformações no corpo da mulher. Ondas de calor, alterações do sono, mudanças de humor e ganho de peso são consequência direta de profundas alterações hormonais. Muitas mulheres relatam algo frustrante: mesmo com dieta, exercício e esforço, o peso insiste em não baixar.

Nos últimos anos, medicamentos modernos para obesidade, como a tirzepatida, revolucionaram o tratamento do excesso de peso. Mas uma pergunta começou a surgir entre médicos e pacientes: 

 – Será que todas as mulheres respondem da mesma forma a esses medicamentos?

 – E será que a reposição hormonal da menopausa pode influenciar o emagrecimento?

Um estudo científico recente, realizado na Mayo Clinic e publicado em uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo, trouxe respostas importantes para essas perguntas


Por que a menopausa favorece o ganho de peso?

Entre os 40 e 65 anos, a prevalência de obesidade em mulheres aumenta em quase 30%. Isso não acontece por acaso.

Durante a transição para a menopausa, ocorre:

  • queda acentuada do estrogênio;

  • redução da massa muscular;

  • diminuição do gasto energético basal;

  • redistribuição da gordura corporal (menos quadril e mais abdômen);

  • piora da sensibilidade à insulina;

  • pior qualidade do sono, especialmente por ondas de calor noturnas.

Essas mudanças favorecem o acúmulo de gordura visceral, aquela localizada na região abdominal, diretamente associada a maior risco de:

  • diabetes tipo 2,

  • hipertensão,

  • colesterol alto,

  • doença cardiovascular.

Ou seja, o ganho de peso na menopausa não é apenas estético ,  é um problema de saúde.


O papel da tirzepatida no tratamento da obesidade

A tirzepatida é um medicamento injetável semanal que atua em dois hormônios intestinais:

  • GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1)

  • GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose)

Essa combinação faz com que ela seja, até o momento, o medicamento mais potente aprovado para tratamento da obesidade, com estudos mostrando reduções médias de 15% a 25% do peso corporal.

Além do emagrecimento, a tirzepatida:

  • melhora o controle da glicose;

  • reduz pressão arterial;

  • melhora perfil lipídico;

  • reduz gordura no fígado;

  • diminui risco cardiovascular.

Mas até recentemente, não sabíamos se mulheres na pós-menopausa respondiam da mesma forma, nem se a terapia hormonal poderia interferir nesses resultados.


O que este novo estudo investigou?

Os pesquisadores da Mayo Clinic realizaram um estudo de coorte retrospectivo, analisando dados reais de mulheres tratadas na prática clínica.

Quem participou?

  • 120 mulheres na pós-menopausa

  • Com sobrepeso ou obesidade

  • Em uso de tirzepatida por pelo menos 12 meses

Elas foram divididas em dois grupos:

  • 40 mulheres em uso de terapia hormonal da menopausa

  • 80 mulheres que não usavam hormônio

Os grupos foram cuidadosamente pareados por:

  • idade,

  • IMC inicial,

  • tipo de menopausa,

  • presença de diabetes,

  • uso prévio de medicamentos para obesidade.


O principal resultado: mulheres que usavam hormônio emagreceram mais

Após cerca de 18 meses de acompanhamento, os resultados foram:

Perda de peso total

  • Com hormônio: –19,2% do peso corporal

  • Sem hormônio: –14,0% do peso corporal

Diferença média: –5,2% a mais de emagrecimento no grupo que usava terapia hormonal.

Isso significa que, para uma mulher de 90 kg:

  • sem hormônio → perda média de ~12,6 kg

  • com hormônio → perda média de ~17,3 kg

 

 

E não foi só mais peso perdido — foi mais sucesso clínico

As mulheres que usavam hormônio:

  • tiveram o dobro de chance de perder ≥20% do peso

  • quase 4 vezes mais chance de perder ≥25%

  • e até 4 vezes mais chance de perder ≥30% do peso corporal

Esses níveis de perda de peso estão associados a:

  • remissão de diabetes tipo 2;

  • melhora importante da pressão arterial;

  • redução expressiva do risco cardiovascular;

  • melhora da qualidade de vida.


E quanto à saúde metabólica?

Ambos os grupos melhoraram, mas o grupo com terapia hormonal apresentou benefícios adicionais:

  • maior redução da pressão diastólica;

  • maior queda dos triglicerídeos;

  • melhora adicional de enzimas do fígado.

Esses achados sugerem que o estrogênio pode potencializar os efeitos metabólicos da tirzepatida, especialmente na gordura visceral e na sensibilidade à insulina.


Os efeitos colaterais foram maiores com hormônio?

Não.

Cerca de 39% das mulheres relataram algum efeito colateral, principalmente:

  • náusea,

  • desconforto gastrointestinal,

  • sensação de estufamento.

Não houve diferença significativa entre quem usava ou não hormônio.

Eventos como hipoglicemia foram raros e semelhantes entre os grupos.


Por que o hormônio pode melhorar o efeito da tirzepatida?

A ciência aponta vários mecanismos possíveis:

 

O estrogênio atua no cérebro

Ele potencializa a ação do GLP-1 nos centros de saciedade, reduzindo:

  • fome,

  • compulsão,

  • desejo por alimentos altamente calóricos.

Preserva massa muscular

Melhora o sono e o bem-estar

Menos ondas de calor → melhor sono → melhor controle do apetite.

 


Isso significa que toda mulher deve usar hormônio para emagrecer?

Não.

A terapia hormonal não é um tratamento para obesidade por si só.
Ela deve ser indicada apenas quando há:

  • sintomas da menopausa;

  • indicação clínica clara;

  • avaliação individual de riscos , benefícios e contra-indicações

 

O que o estudo mostra é que:
quando a terapia hormonal é bem indicada, ela pode potencializar os resultados do tratamento da obesidade com medicamentos modernos.


A importância do acompanhamento com endocrinologista

Esse estudo reforça algo fundamental:
não existe tratamento “padrão” para todas as mulheres.

Na menopausa, é essencial avaliar:

  • sintomas,

  • composição corporal,

  • risco cardiovascular,

  • histórico pessoal e familiar,

  • riscos associados à terapia hormonal,

  • escolha correta da medicação para obesidade,

  • doses e seguimento.

Combinar tirzepatida e terapia hormonal exige conhecimento técnico, experiência clínica e monitorização cuidadosa.


O que esse estudo muda na prática?

Ele abre caminho para uma abordagem mais moderna e personalizada:

  • obesidade passa a ser tratada como doença crônica;

  • menopausa é reconhecida como fator modificador do tratamento;

  • decisões passam a ser individualizadas, baseadas em ciência.

 
 
 

Referência científica

Castaneda R, Bechenati D, Tama E, et al.The role of menopause hormone therapy in modulating tirzepatide-associated weight loss in postmenopausal women with overweight or obesity: a retrospective cohort study.Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health. 2026.

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Dra Nathália Sousa

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