A menopausa é um período de grandes transformações no corpo da mulher. Ondas de calor, alterações do sono, mudanças de humor e ganho de peso são consequência direta de profundas alterações hormonais. Muitas mulheres relatam algo frustrante: mesmo com dieta, exercício e esforço, o peso insiste em não baixar.
Nos últimos anos, medicamentos modernos para obesidade, como a tirzepatida, revolucionaram o tratamento do excesso de peso. Mas uma pergunta começou a surgir entre médicos e pacientes:
– Será que todas as mulheres respondem da mesma forma a esses medicamentos?
– E será que a reposição hormonal da menopausa pode influenciar o emagrecimento?
Um estudo científico recente, realizado na Mayo Clinic e publicado em uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo, trouxe respostas importantes para essas perguntas
Por que a menopausa favorece o ganho de peso?
Entre os 40 e 65 anos, a prevalência de obesidade em mulheres aumenta em quase 30%. Isso não acontece por acaso.
Durante a transição para a menopausa, ocorre:
queda acentuada do estrogênio;
redução da massa muscular;
diminuição do gasto energético basal;
redistribuição da gordura corporal (menos quadril e mais abdômen);
piora da sensibilidade à insulina;
pior qualidade do sono, especialmente por ondas de calor noturnas.
Essas mudanças favorecem o acúmulo de gordura visceral, aquela localizada na região abdominal, diretamente associada a maior risco de:
diabetes tipo 2,
hipertensão,
colesterol alto,
doença cardiovascular.
Ou seja, o ganho de peso na menopausa não é apenas estético , é um problema de saúde.
O papel da tirzepatida no tratamento da obesidade
A tirzepatida é um medicamento injetável semanal que atua em dois hormônios intestinais:
GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1)
GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose)
Essa combinação faz com que ela seja, até o momento, o medicamento mais potente aprovado para tratamento da obesidade, com estudos mostrando reduções médias de 15% a 25% do peso corporal.
Além do emagrecimento, a tirzepatida:
melhora o controle da glicose;
reduz pressão arterial;
melhora perfil lipídico;
reduz gordura no fígado;
diminui risco cardiovascular.
Mas até recentemente, não sabíamos se mulheres na pós-menopausa respondiam da mesma forma, nem se a terapia hormonal poderia interferir nesses resultados.
O que este novo estudo investigou?
Os pesquisadores da Mayo Clinic realizaram um estudo de coorte retrospectivo, analisando dados reais de mulheres tratadas na prática clínica.
Quem participou?
120 mulheres na pós-menopausa
Com sobrepeso ou obesidade
Em uso de tirzepatida por pelo menos 12 meses
Elas foram divididas em dois grupos:
40 mulheres em uso de terapia hormonal da menopausa
80 mulheres que não usavam hormônio
Os grupos foram cuidadosamente pareados por:
idade,
IMC inicial,
tipo de menopausa,
presença de diabetes,
uso prévio de medicamentos para obesidade.
O principal resultado: mulheres que usavam hormônio emagreceram mais
Após cerca de 18 meses de acompanhamento, os resultados foram:
Perda de peso total
Com hormônio: –19,2% do peso corporal
Sem hormônio: –14,0% do peso corporal
Diferença média: –5,2% a mais de emagrecimento no grupo que usava terapia hormonal.
Isso significa que, para uma mulher de 90 kg:
sem hormônio → perda média de ~12,6 kg
com hormônio → perda média de ~17,3 kg
E não foi só mais peso perdido — foi mais sucesso clínico
As mulheres que usavam hormônio:
tiveram o dobro de chance de perder ≥20% do peso
quase 4 vezes mais chance de perder ≥25%
e até 4 vezes mais chance de perder ≥30% do peso corporal
Esses níveis de perda de peso estão associados a:
remissão de diabetes tipo 2;
melhora importante da pressão arterial;
redução expressiva do risco cardiovascular;
melhora da qualidade de vida.
E quanto à saúde metabólica?
Ambos os grupos melhoraram, mas o grupo com terapia hormonal apresentou benefícios adicionais:
maior redução da pressão diastólica;
maior queda dos triglicerídeos;
melhora adicional de enzimas do fígado.
Esses achados sugerem que o estrogênio pode potencializar os efeitos metabólicos da tirzepatida, especialmente na gordura visceral e na sensibilidade à insulina.
Os efeitos colaterais foram maiores com hormônio?
Não.
Cerca de 39% das mulheres relataram algum efeito colateral, principalmente:
náusea,
desconforto gastrointestinal,
sensação de estufamento.
Não houve diferença significativa entre quem usava ou não hormônio.
Eventos como hipoglicemia foram raros e semelhantes entre os grupos.
Por que o hormônio pode melhorar o efeito da tirzepatida?
A ciência aponta vários mecanismos possíveis:
O estrogênio atua no cérebro
Ele potencializa a ação do GLP-1 nos centros de saciedade, reduzindo:
fome,
compulsão,
desejo por alimentos altamente calóricos.
Preserva massa muscular
Melhora o sono e o bem-estar
Menos ondas de calor → melhor sono → melhor controle do apetite.
Isso significa que toda mulher deve usar hormônio para emagrecer?
Não.
A terapia hormonal não é um tratamento para obesidade por si só.
Ela deve ser indicada apenas quando há:
sintomas da menopausa;
indicação clínica clara;
avaliação individual de riscos , benefícios e contra-indicações
O que o estudo mostra é que:
quando a terapia hormonal é bem indicada, ela pode potencializar os resultados do tratamento da obesidade com medicamentos modernos.
A importância do acompanhamento com endocrinologista
Esse estudo reforça algo fundamental:
não existe tratamento “padrão” para todas as mulheres.
Na menopausa, é essencial avaliar:
sintomas,
composição corporal,
risco cardiovascular,
histórico pessoal e familiar,
riscos associados à terapia hormonal,
escolha correta da medicação para obesidade,
doses e seguimento.
Combinar tirzepatida e terapia hormonal exige conhecimento técnico, experiência clínica e monitorização cuidadosa.
O que esse estudo muda na prática?
Ele abre caminho para uma abordagem mais moderna e personalizada:
obesidade passa a ser tratada como doença crônica;
menopausa é reconhecida como fator modificador do tratamento;
decisões passam a ser individualizadas, baseadas em ciência.
Referência científica
Castaneda R, Bechenati D, Tama E, et al.The role of menopause hormone therapy in modulating tirzepatide-associated weight loss in postmenopausal women with overweight or obesity: a retrospective cohort study.Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health. 2026.





