Dra. Nathalia Sousa

Hormônio da Tireóide na Gestação e Autismo

Quando falamos em saúde da gestação, quase sempre pensamos em vitaminas, glicemia, pressão alta. Mas existe um hormônio que trabalha silenciosamente desde os primeiros dias e tem impacto direto no desenvolvimento do cérebro do bebê: os hormônios da tireoide.

Nos últimos anos, a ciência tem investigado como alterações nesses hormônios , mesmo leves, podem influenciar o crescimento e a formação neurológica do feto. E um novo estudo publicado em 2025, realizado em mais de 51 mil gestantes, trouxe respostas importantes sobre um tema que preocupa muitos pais: existe relação entre problemas de tireoide na gestação e risco aumentado de autismo?

O artigo analisado aqui — Maternal Thyroid Hormone Imbalance and Risk of Autism Spectrum Disorder — reforça algo essencial: quando a tireoide é bem tratada, o risco não aumenta. Mas quando o desequilíbrio hormonal persiste durante a gestação, especialmente em mais de um trimestre, o risco sobe de forma significativa.


Por que os hormônios da tireoide são tão importantes para o cérebro do bebê?

Durante a gestação , especialmente no primeiro trimestre, o bebê ainda não produz suficiente hormônio tireoidiano. Ele depende quase totalmente da mãe. Esses hormônios são essenciais para:

  • formação do córtex cerebral

  • desenvolvimento dos neurônios

  • maturação das sinapses

  • estruturação das vias de linguagem, memória e comportamento

Quando há faltas ou oscilações importantes, esse processo pode ser prejudicado. Por isso a tireoide é um dos pilares da saúde gestacional.


O que este estudo avaliou?

O estudo analisou 51.296 gestantes entre 2011 e 2017, acompanhando os filhos até 2021 para verificar diagnóstico de autismo. As mães foram classificadas em três grupos:

  1. Hipotireoidismo crônico bem tratado

  2. Disfunção tireoidiana que surgiu durante a gestação (gestacional)

  3. Ambas: doença crônica + descontrole durante a gestação

Essa distinção é crucial, porque muita gente tem hipotireoidismo e usa levotiroxina — e isso, na maioria das vezes, mantém a gestação completamente segura.


O que os pesquisadores descobriram?

 

1. Apenas ter hipotireoidismo crônico bem tratado NÃO aumenta o risco de autismo

O estudo mostrou que mulheres com hipotireoidismo crônico, mas com tratamento adequado, não tiveram aumento de risco.

2. O risco aumentou quando havia hipotireoidismo crônico + descontrole hormonal durante a gestação

Quando a doença pré-existente não está totalmente controlada durante a gestação, o risco aumenta.


3. O risco sobe conforme o número de trimestres com descontrole hormonal

Um dos achados mais marcantes do estudo foi o efeito dose–resposta:

  • 1 trimestre de alteração →  aumento no risco em  1,69 vezes

  • 2 trimestres de alteração → aumento no risco em 2,39 vezes

  • 3 trimestres de alteração → aumento no risco em  3,25 vezes


Quanto mais tempo a tireoide fica desregulada durante a gestação, maior é o risco.

Esse dado reforça a importância de acompanhar cada trimestre — não apenas no início ou apenas no final.


4. Não houve aumento de risco de autismo quando havia apenas disfunção leve e sem duração prolongada

Isso é reconfortante. Nem toda alteração leve leva a riscos.
O problema ocorre quando:

  • a alteração persiste

  • não é tratada

  • a gestante já tinha doença prévia somada ao descontrole gestacional


5. O tipo de disfunção importa: o estudo encontrou associação principalmente com o hipotireoidismo

A baixa de hormônios maternos é a que mais impacta o cérebro fetal, especialmente no início da gestação.


O que isso significa na prática?

Este estudo não diz que “toda alteração da tireoide causa autismo”.
O que ele mostra é:

Quando o hipotireoidismo é tratado de forma adequada → risco normal

Quando o hormônio permanece desregulado na gravidez → risco aumentado

Quanto mais cedo é identificado e tratado, melhor o impacto para o bebê

 


Por que esse estudo é tão importante?

Porque traz clareza e diminui o medo. Durante anos, circularam notícias alarmistas relacionando autismo e tireoide — muitas vezes sem rigor científico.

Aqui, pela primeira vez, temos um estudo grande, robusto, com:

  • mais de 51 mil gestantes

  • acompanhamento até 10 anos

  • análise trimestre a trimestre

  • distinção entre doença controlada e descontrolada

E ele mostra que:

Quando a tireoide é bem monitorada e tratada, a gestação é segura.


O que você pode fazer para proteger seu bebê?

Faça o rastreamento de tireoide antes e durante a gestação

Idealmente:

  • antes de engravidar

  • no 1º trimestre

  • reavaliar ao longo da gestação conforme o histórico

Se você já tem hipotireoidismo: ajuste a dose assim que engravidar

A necessidade de levotiroxina geralmente aumenta, confirme com seu médico quanto seria esse aumento.

Não interrompa ou reduza o remédio por conta própria

O risco vem do descontrole, não do tratamento.

Observe sintomas, mas não dependa apenas deles

Muitas gestantes ficam assintomáticas mesmo com alterações importantes.

 


Referência

 

Elbedour L, Weinberg M, Meiri G, Michaelovski A, Menashe I. Maternal Thyroid Hormone Imbalance and Risk of Autism Spectrum Disorder. J Clin Endocrinol Metab. 2025;00:1–9. 

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Dra Nathália Sousa
Endocrinologista

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