Dra. Nathalia Sousa

Câncer diferenciado de tireoide: o que mudou na nova diretriz da ATA (2025)

Se você recebeu o diagnóstico de câncer de tireoide (especialmente carcinoma papilífero ou folicular) ou tem um nódulo suspeito e está esperando biópsia, provavelmente já se perguntou:

    • “Vou precisar tirar a tireoide toda?”

    • “Vou precisar de iodoterapia?”

    • “Vou ter que fazer exames pro resto da vida?”

A Associação Americana de Tireoide (ATA) acabou de atualizar, em 2025, as diretrizes para o manejo do câncer de tireoide diferenciado em adultos, substituindo a versão de 2015. Este novo documento traz uma mensagem muito clara:

menos tratamento desnecessário, mais personalização e mais foco na qualidade de vida. 


1. O que é câncer de tireoide diferenciado – e por que essa diretriz importa

Quando falamos em câncer de tireoide diferenciado, estamos falando principalmente de:

    • Carcinoma papilífero

    • Carcinoma folicular

    • Alguns subtipos relacionados (como variantes foliculares, oncocíticas, etc.)

A grande maioria dos casos tem excelente prognóstico. O desafio hoje não é só “curar”, mas evitar exagero de tratamento: cirurgias maiores do que o necessário, iodoterapia em quem não precisa, TSH suprimido demais por tempo excessivo e uma vida inteira de exames mesmo para pacientes com risco muito baixo.

A diretriz ATA 2025 foi construída justamente para:

    • Atualizar as recomendações com base em novos estudos

    • Incluir genética tumoral e novas terapias-alvo para casos selecionados

  • Fortalecer o conceito de tratamento sob medida e decisão compartilhada entre médico e paciente 
 


2. O novo modelo DATA: mais decisão compartilhada, menos “receita pronta”

Uma das grandes novidades da diretriz 2025 é o modelo DATA:

    • D – Diagnosis (Diagnóstico)

    • A – risk/benefit Assessment (Avaliação de risco/benefício)

    • T – Treatment decisions (Decisões de tratamento)

    • A – response Assessment (Avaliação de resposta) 

Na prática, isso significa:

    • Não existe mais “um caminho único” para todos os pacientes.

    • Cada decisão (tipo de cirurgia, iodoterapia, intensidade do seguimento) é tomada pesando:
        • risco de recidiva

        • idade e comorbidades

        • impacto na voz, no cálcio, no hormônio tireoidiano

        • qualidade de vida, desejos e medos do paciente

A diretriz reforça que você deixa de ser um espectador passivo e passa a participar ativamente das escolhas, junto com o médico.


3. Cirurgia de tireoide: menos tireoidectomia total, mais lobectomia e vigilância

3.1. Cirurgião de alto volume: experiência importa

A diretriz agora afirma de forma explícita:
cirurgia de câncer de tireoide deve ser feita, quando possível, por cirurgião de alto volume, definido como aquele que realiza pelo menos 25 tireoidectomias por ano

Por quê?

    • Menor risco de complicações (como lesão do nervo da voz ou hipoparatireoidismo)

    • Menos necessidade de reoperação

    • Melhor qualidade técnica geral

3.2. Microcarcinoma (tumores ≤ 1 cm): cresce a opção de não operar já

Uma das mudanças mais importantes:

    • Para tumores T1a (≤ 1 cm), sem sinais de invasão ou linfonodos comprometidos, a diretriz discute o papel da vigilância ativa 

O que é isso?

    • Em vez de operar imediatamente, o paciente é acompanhado com ultrassom a cada 6 meses nos primeiros 1–2 anos, depois anualmente, com equipe experiente.

    • A cirurgia é indicada se:
        • o nódulo cresce de forma significativa

        • aparecem linfonodos suspeitos

        • ou se o próprio paciente, informado sobre riscos/benefícios, preferir operar.

Estudos mostram que, nesses casos, observar com cuidado tem resultados oncológicos semelhantes à cirurgia imediata, com melhor qualidade de vida para pacientes selecionados.

Novidade interessante: a diretriz também cita ablação percutânea (como radiofrequência) como alternativa em alguns casos muito selecionados, discutida caso a caso. 

3.3. Lobectomia: tirar só metade da tireoide virou o padrão em mais situações

Na diretriz de 2015, já se falava em lobectomia, mas agora o papel dela é ainda mais ampliado:

    • Tumores < 2 cm, sem extensão para fora da tireoide nem linfonodos suspeitos:
        • Lobectomia é o tratamento preferido, salvo contraindicações.

    • Tumores entre 2 e 4 cm, sem invasão e sem doença no outro lobo:
        • Podem ser tratados tanto com lobectomia quanto com tireoidectomia total, dependendo do contexto. 

Por que isso é importante para você?

    • Menos risco de hipoparatireoidismo definitivo

    • Menor risco de alteração da voz

    • Muitas vezes, possibilidade de não precisar de iodoterapia

    • Em alguns casos, nem é obrigatório tomar hormônio para o resto da vida (alguns pacientes mantêm função adequada com metade da glândula)

A diretriz também recomenda considerar o estado do nervo laríngeo recorrente (o nervo da voz) na decisão de fazer ou não uma cirurgia de “complementação” (tirar o restante da tireoide depois da primeira cirurgia)

3.4. Linfonodos do pescoço: menos dissecção preventiva

Antes, muitos pacientes faziam esvaziamento de todo o compartimento central do pescoço mesmo sem linfonodos claramente doentes, como forma “preventiva”.

Agora:

    • A nova diretriz mostra de forma mais clara que a dissecção central profilática (sem linfonodo comprometido no exame) não melhora desfechos de longo prazo em tumores T1–T2 e aumenta risco de complicações. 

    • Ou seja, para a maioria dos tumores menores, não se recomenda mais essa retirada “por via das dúvidas”.

    • Já quando existem linfonodos alterados no pescoço lato (N1b), a diretriz recomenda esvaziamento também da região central do mesmo lado. 

Resultado prático: menos cirurgias grandes desnecessárias, com foco em retirar apenas o que realmente precisa ser retirado.


4. Laudo, risco e estadiamento

 

4.1. NIFTP e novos subtipos: nem tudo que tem “cara” de câncer se comporta como tal

A diretriz incorpora a atualização da OMS 2025 na classificação dos tumores de tireoide. Entre os pontos importantes: 

    • Lesões antes chamadas de “variante folicular encapsulada de carcinoma papilífero sem invasão” agora são classificadas como
      NIFTP – neoplasia folicular não invasiva com características nucleares de papilífero, consideradas de baixo risco, sem necessidade de complementação agressiva.

    • Tumores oncocíticos (OTC) e carcinomas de alto grau são reconhecidos como subtipos de pior prognóstico, exigindo abordagem mais intensa.

4.2. Risco de recidiva agora em 4 níveis, não 3

A ATA manteve o sistema de estratificação de risco (baixo/intermediário/alto), mas o refinou em um esquema de 4 níveis de risco de recidiva (ROR): baixo, baixo-intermediário, intermediário-alto e alto. 

Vários detalhes mudaram:

    • N1a (linfonodos centrais) passam a ser considerados de risco menor do que N1b (laterais).

    • Doença multifocal (vários focos no mesmo lobo) aumenta o risco, mesmo em tumores pequenos.

    • Extensão microscópica mínima para fora da tireoide é tratada como achado de risco mais baixo do que se imaginava.

    • Margens microscópicas positivas posteriores (para trás da tireoide) são consideradas mais preocupantes do que margens anteriores.

Essas nuances permitem ajustar o tratamento: um paciente com risco “baixo-intermediário” hoje pode não precisar da mesma agressividade de um paciente “intermediário-alto” – embora ambos fossem chamados de “intermediário” na versão antiga.

4.3. Tireoglobulina (Tg) e tempo de coleta: mais precisão, menos ansiedade

Outra mudança relevante:

    • A diretriz recomenda medir Tg e anti-Tg entre 6 e 12 semanas após a cirurgia, e não mais em 3–4 semanas, para permitir que os níveis estabilizem melhor. 

Além disso, para pacientes que retiraram a tireoide mas não fizeram iodoterapia, agora há pontos de corte específicos de Tg:

    • < 2,5 ng/mL → resposta excelente

    • 2,5–5 ng/mL → resposta indeterminada

    • > 5 ng/mL → resposta bioquimicamente incompleta 

Isso ajuda a classificar melhor a situação do paciente e evita pânico desnecessário com valores discretamente alterados que, isoladamente, não significam recidiva.


5. Radioiodo, radioterapia e TSH: mais personalização, menos uso automático

5.1. Iodoterapia (RAI): não é “obrigatória” para todo mundo

O papel da radioiodoterapia (I-131) permanece fundamental em alguns cenários, mas a diretriz 2025:

    • Reforça que o uso deve ser individualizado conforme o novo risco de recidiva (4 níveis). 

    • Dá mais flexibilidade em pacientes de risco baixo-intermediário e intermediário-alto, permitindo discussão caso a caso.

    • Chama atenção para:
        • risco de segundo câncer

        • efeitos em glândulas salivares e lacrimais

        • necessidade de orientação prévia detalhada com o paciente.

Outra mudança importante:
a diretriz passa a preferir o uso de TSH recombinante (rhTSH) para preparo da iodoterapia, inclusive em grupos de maior risco, sempre que possível, pois isso preserva melhor a qualidade de vida (menos sintomas de hipotireoidismo). 

Na questão de fertilidade:

    • Orienta evitar concepção por pelo menos 6 meses, e não mais 6–12, e reforça que as doses habituais de RAI não prejudicam a fertilidade da mulher.

5.2. Radioterapia externa (EBRT) e quimiorradioterapia em casos selecionados

Outra novidade: a diretriz agora abre mais espaço para o uso de radioterapia externa após a cirurgia, em casos muito selecionados:

    • Pacientes com alto risco de progressão locorregional, nos quais uma recidiva pode não ser facilmente operável depois

    • Situações com doença residual grosseira ou localmente avançada não ressecável, em que EBRT, às vezes combinada a quimioterapia, pode melhorar o controle local .

Isso não é para a maioria dos pacientes, mas mostra que o arsenal terapêutico está mais completo para quadros complexos.

5.3. TSH: de faixas numéricas para um modelo mais simples

Antes, a diretriz trabalhava com vários alvos numéricos de TSH (por exemplo, 0,1–0,5, <0,1, etc.). Agora, para simplificar:

    • O TSH é classificado em:
        • “dentro da faixa de referência normal”

        • “abaixo da faixa de referência normal” 

Após tireoidectomia total (com ou sem RAI):

    • Resposta excelente ou indeterminada → TSH dentro da faixa normal

    • Resposta bioquimicamente ou estruturalmente incompleta → TSH mantido abaixo do normal

Para quem fez apenas lobectomia, só existem duas categorias de resposta (excelente ou estruturalmente incompleta), e a estratégia é ajustada de forma mais conservadora.

Um detalhe importante:
a diretriz deixa de recomendar, de forma explícita, manter supressão de TSH por até 5 anos em todos os pacientes de alto risco com resposta excelente, reforçando o foco em individualização


6. Seguimento a longo prazo: nasce o conceito de “remissão completa”

Uma das mudanças mais animadoras para muitos pacientes está no seguimento.

A diretriz reconhece que fazer exames e ultrassom por décadas, sem nenhum sinal de doença, traz:

    • Custo emocional

    • Custo financeiro

    • Cansaço e “etiqueta de paciente oncológico para sempre”

Por isso, recomenda:

    • Pacientes de baixo risco, com resposta excelente após tireoidectomia total (com ou sem RAI), podem:
        • Suspender o ultrassom de rotina após 5–8 anos de acompanhamento estável

        • Manter apenas Tg 1 vez a cada 1–2 anos

    • Após 10–15 anos de resposta excelente contínua, esses pacientes podem ser considerados em “remissão completa”.

Isso é um verdadeiro marco: pela primeira vez, a diretriz sinaliza explicitamente que, em muitos casos, é possível “fechar o ciclo” do câncer de tireoide.

Para quem fez apenas lobectomia:

    • Ultrassom a cada 1–3 anos por 5–8 anos, se o exame inicial for normal

    • Tg seriada não é recomendada rotineiramente; o foco é o exame de imagem. 


 

7. O que tudo isso muda para você, na prática?

Se você tem (ou teve) câncer de tireoide diferenciado, as principais mensagens da diretriz 2025 que impactam sua jornada são:

    • Mais chance de tratamentos menos agressivos, como:
        • vigilância ativa em microcarcinomas bem selecionados

        • lobectomia em vez de tireoidectomia total em muitos casos

    • Menos cirurgias preventivas de linfonodos sem real benefício

    • Iodoterapia mais bem indicada, e não usada de rotina em todo mundo

    • TSH menos “suprimido para sempre” – o alvo passa a ser definido pelo seu risco real e pela resposta ao tratamento

    • Possibilidade real, em muitos pacientes de baixo risco, de:
        • reduzir a frequência de exames

        • suspender ultrassom

        • e, após 10–15 anos de resposta excelente, ser considerado em remissão completa, sem necessidade de seguimento oncológico intensivo

Ao mesmo tempo:

    • Para doenças mais agressivas ou avançadas, há novas opções de tratamento (terapias-alvo, imunoterapia, radioterapia com indicação mais clara, ablação de metástases).

Tudo isso exige um acompanhamento com alguém que conheça bem:

    • As novas diretrizes da ATA 2025

    • As nuances entre baixo, intermediário e alto risco

    • As melhores estratégias para equilibrar segurança oncológica com qualidade de vida

 

Agende sua Consulta

Dra Nathália Sousa
Endocrinologista

Posts Recentes