Dra. Nathalia Sousa

Bypass ou Sleeve: qual é a melhor cirurgia bariátrica para você?

Se você está pensando em fazer uma cirurgia bariátrica, provavelmente já ouviu falar sobre os dois tipos mais realizados no mundo: o bypass gástrico e a gastrectomia vertical, também chamada de sleeve. Mas afinal, qual é a melhor cirurgia bariátrica para você?

Essa é uma dúvida muito comum no consultório, especialmente entre pacientes com obesidade e diabetes tipo 2. Para responder de forma clara, segura e baseada em evidências, vou apresentar os resultados de um estudo recente e muito importante publicado em abril de 2025 na The Lancet Diabetes & Endocrinology — uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo.

Este estudo é o ensaio clínico Oseberg, conduzido na Noruega, que comparou os dois tipos de cirurgia em pacientes com obesidade e diabetes tipo 2, acompanhando os resultados por 5 anos. O objetivo foi entender qual cirurgia oferece maior chance de remissão do diabetes, melhor perda de peso e mais benefícios cardiovasculares, e quais são os efeitos colaterais associados a cada uma.

Neste post, vou explicar os principais achados de forma simples e direta — e ao final, você poderá tomar uma decisão muito mais consciente .


O que é o estudo Oseberg?

O Oseberg é um ensaio clínico randomizado, triplo-cego, realizado com 109 pacientes com obesidade e diabetes tipo 2. Eles foram sorteados para fazer bypass gástrico ou sleeve e foram acompanhados por 5 anos.

Essa metodologia é considerada o padrão ouro da ciência médica, porque reduz ao máximo o risco de erro ou viés nos resultados.


Principais diferenças entre as cirurgias

Antes de entrar nos resultados, vale relembrar as diferenças entre os dois procedimentos:

CirurgiaO que é feitoComo age
Bypass gástricoRedução do estômago + desvio do intestino delgadoReduz o tamanho do estômago e altera a absorção dos alimentos
Sleeve (gastrectomia vertical)Retirada de parte do estômago (em forma de tubo)Reduz o estômago sem alterar o intestino

Ambas promovem saciedade precoce, alterações hormonais favoráveis e grande perda de peso — mas com mecanismos diferentes e implicações distintas a longo prazo. 

Resultado 1: Qual cirurgia tem maior chance de remissão do diabetes?

Aqui está o dado mais importante do estudo: a remissão do diabetes tipo 2 foi mais do que o dobro no grupo que fez bypass.

  • Após 5 anos:

    • 63% dos pacientes que fizeram bypass gástrico estavam com o diabetes em remissão (HbA1c < 6,5% sem medicação).

    • Apenas 30% dos pacientes que fizeram sleeve atingiram esse resultado.

💡 Ou seja, quem fez bypass teve 2 vezes mais chance de “zerar” o diabetes!

A remissão também foi melhor mesmo usando um critério mais rigoroso (HbA1c ≤ 6% sem medicamentos), com 50% no grupo do bypass versus 20% no sleeve.


Resultado 2: Qual emagrece mais?

Ambas as cirurgias proporcionam grande perda de peso, mas o bypass foi superior também nesse aspecto.

  • Após 5 anos:

    • O grupo do bypass perdeu em média 22,2% do peso corporal total.

    • O grupo do sleeve perdeu 17,2%.

Na prática, isso representa uma diferença de cerca de 6 a 7 kg a mais em benefício do bypass.

Além disso, a redução da gordura corporal foi significativamente maior após o bypass, com 36,7% de perda de gordura versus 27,2% no sleeve.


Resultado 3: Colesterol e pressão arterial

O bypass também se destacou na melhora dos fatores de risco cardiovascular, como:

  • Redução maior do LDL-colesterol (colesterol “ruim”)

  • Menor necessidade de uso de medicamentos para diabetes e colesterol.

  • Redução discreta da pressão arterial diastólica.

Esses dados sugerem que o bypass pode proteger melhor o coração e os vasos sanguíneos a longo prazo.


Resultado 4: Qual cirurgia tem mais efeitos colaterais?

Aqui está a parte que exige atenção especial — porque toda cirurgia tem riscos, e é essencial conhecê-los.

🔹 Efeitos mais comuns do bypass:

  • Hipoglicemia pós-prandial (queda de açúcar após as refeições):

    • 28% dos pacientes no grupo do bypass relataram episódios, contra apenas 2% no sleeve.

  • Dumping (sensação de mal-estar após refeições com muito açúcar ou gordura):

    • Mais comum no bypass, mas geralmente controlável com orientação alimentar.

🔹 Efeitos mais comuns do sleeve:

  • Refluxo gastroesofágico (azia, queimação, tosse):

    • Ocorrência de refluxo com ácido aumentou no grupo do sleeve.

    • 59% apresentaram refluxo (contra 8% no bypass).

    • Uso de remédio para refluxo foi mais frequente após sleeve.

Portanto, o bypass tem mais risco de hipoglicemia, enquanto o sleeve tem mais risco de refluxo ácido.


E a qualidade de vida?

Tanto o bypass quanto o sleeve melhoraram significativamente a qualidade de vida relacionada ao peso e à saúde geral dos pacientes. No entanto, o bypass teve maior impacto na autoestima e maior melhora no escore total de bem-estar relacionado ao peso.


O que dizem outros estudos?

O artigo de comentário publicado na mesma edição da revista Lancet faz uma análise crítica e relevante:

  • Outros ensaios clínicos também compararam essas cirurgias, como os estudos SLEEVEPASSSM-BOSS e SleeveBypass.

  • Nesses estudos, a diferença na remissão do diabetes entre os procedimentos foi menor.

  • No entanto, todos concordam que o controle do diabetes está fortemente ligado à perda de peso e que o bypass tende a ser mais potente nesse aspecto.

O ensaio Oseberg se destaca por seu alto rigor metodológico, mas apresenta limitações como o número relativamente pequeno de pacientes e pequenas diferenças no perfil inicial dos grupos, o que deve ser considerado na interpretação dos resultados.


Como decidir: sleeve ou bypass?

A escolha ideal depende de vários fatores individuais. Veja um resumo comparativo:

AspectoBypass GástricoSleeve (Gastrectomia Vertical)
Remissão do diabetesSuperior (63% em 5 anos)Inferior (30% em 5 anos)
Perda de pesoMaior (22,2%)Boa (17,2%)
Colesterol LDLRedução significativaAumento leve em alguns pacientes
Refluxo ácidoMenor riscoRisco elevado em até 60% dos casos
Hipoglicemia pós-prandialMais comum (28%)Muito rara (2%)
Técnica cirúrgicaMais complexaMais simples
Absorção de nutrientesMenor (requer suplementação cuidadosa)Menor interferência na absorção

 

Conclusão: a escolha deve ser individual

O mais importante é lembrar que não existe cirurgia perfeita, e sim a cirurgia mais adequada para você.

Com base na sua história clínica, exames, expectativas e perfil psicológico, podemos decidir juntos qual caminho seguir. A decisão deve ser feita com apoio da equipe médica, com endocrinologista, cirurgião bariátrico, nutricionista e psicólogo.


 

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Referências científicas:

  1. Hauge JW, Borgeraas H, Birkeland KI, et al. Effect of gastric bypass versus sleeve gastrectomy on the remission of type 2 diabetes, weight loss, and cardiovascular risk factors at 5 years (Oseberg)Lancet Diabetes Endocrinol. 2025; Published online April 1. https://doi.org/10.1016/S2213-8587(24)00396-6

  2. Salminen P, Peterli R. Follow-up on type 2 diabetes remission: sleeve gastrectomy versus gastric bypassLancet Diabetes Endocrinol. 2025; Published online April 1. https://doi.org/10.1016/S2213-8587(25)00026-9

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